Como reverter o atraso do diagnóstico de câncer no sangue

Atualidades | 25/11/2011

O diagnóstico, no Brasil, de pelo menos um dos tipos de câncer do sangue, o mieloma múltiplo, costuma demorar cerca de um ano após o aparecimento dos sintomas. Isso faz com que a doença comece a ser tratada quando já está em estágio muito avançado, dificultando os resultados, alerta o Dr. Angelo Maiolino, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Associação Ítalo-Brasileira de Hematologia.
Essa demora se deve a diversos fatores. Um deles é que o doente, em geral acima dos 60 anos de idade, não dá muita atenção aos sintomas, como dores lombares frequentes. “Por achar que se trata de uma dor própria da idade e em razão da cultura da automedicação ser muito forte, o paciente toma remédios por conta própria, ou se submete à fisioterapia ou acupuntura para minimizar o desconforto”, comenta o especialista.
O diagnóstico tardio segundo o especialista, palestrante do Congresso Brasileiro de Hematologia e Hemoterapia (Hemo 2011), realizado de 10 a 13 de novembro, em São Paulo, também se deve em parte ao sistema de atendimento inicial inadequado.  “Quando o paciente procura ajuda médica recorre ao clínico, ortopedista ou reumatologista em razão das dores ósseas persistentes. É fundamental que tais especialistas considerem a possibilidade de ter diante de si um caso de mieloma múltiplo, solicitando, desse modo, os exames necessários”, avisa Maiolino.
Se aqui o diagnóstico é tardio, cerca de um ano após surgirem as primeiras dores, nos  EUA e na maioria dos países da Europa 60% dos casos da doença são detectados ainda na fase pré-sintoma.  O exame de sangue chamado eletroforese de proteínas está incluído nas rotinas de check-up. Além disso, quando o paciente tem um problema gástrico ou do coração ou qualquer outro distúrbio faz parte da cultura médica acrescentar esse exame que, por sinal, não é muito mais caro que um hemograma. “O procedimento possibilita um diagnóstico no período pré-sintoma, o que para nós é ideal”, comenta o Dr. Maiolino.
Embora o diagnóstico frequentemente seja tardio, por outro lado, o tratamento de mieloma múltiplo está cada vez mais eficaz. Porém nem todas as drogas estão disponíveis em solo nacional, o que coloca os pacientes brasileiros em risco.  “Hoje o mundo tem acesso a um grupo de novas drogas mais eficazes. No Brasil o problema é que a lenalidomida, aprovada em mais de 70 países, ainda aguarda há mais de dois anos o registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)”, lamenta o especialista.
Além dos novos medicamentos há também a possibilidade de transplante de medula óssea  autólogo, no qual o doador é  o próprio paciente. A combinação do transplante com a utilização dessas novas drogas vem mudando o histórico da doença. No passado, a média da sobrevida era de apenas três anos e hoje mais do que triplicou. “Quando o paciente chega assustado com o diagnóstico de câncer no sangue explico que a perspectiva de evolução de tratamento da sua doença é como se estivéssemos falando de uma hipertensão ou diabetes; trata-se de uma doença que pode se tornar crônica, enquanto não se descobre a cura; felizmente hoje o paciente pode levar uma vida normal”, tranquiliza Maiolino.

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